Qual o sentido da filosofia? Domingo, Jun 22 2008 

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964


Não há uma única, só há a filosofia, porque ela como já definiu muito bem Pitágoras, continua com a sua definição, ela nada mais é do que o amor a sabedoria.

Pitágoras, numa aula de geometria, em que fazia a demonstração de um teorema indicou um caminho. Ele disse que devia se fazer a filosofia “a more geométrico”, também com demonstrações rigorosas e apodíticas. Se procedermos assim a filosofia não será motivo de divergências humanas, mas de aproximação.

A matemática não tem divergências, porque ela entrou no campo especulativo e entrou na demonstração rigorosa, o que existe de divergência é que pode haver é na parte de aplicação, na parte prática. É lógico que não pode atingir a perfeição incomutável. O triângulo perfeito será sempre relativo, o que há necessidade é de dar a filosofia outro sentido, se a filosofia for construída assim é uma só, então encontramos uma filosofia perene, positiva e perene através dos séculos, através dos milênios.

Filosofia que vem vindo através dos gregos, através dos pitagóricos, socráticos, platônicos, aristotélicos, através da escolástica, através dos grandes árabes até nós. Agora estamos numa fase de confusão, porque a filosofia está sendo invadida por estetas e o espírito do esteta, o espírito romântico é destrutivo, pois ele acha que a filosofia é subjetiva, pessoal.


A nossa luta é voltar outra vez a estrada real, aquela estrada real que é nossa, que é patrimônio da humanidade. Filosofia não é filodoxia, filosofia não é o campo dos palpites, não é o campo das opiniões, na filosofia não há lugar para opinião. Quando se diz “qual é a sua opinião” não se está mais fazendo filosofia, está se fazendo filodoxia. Filosofia tem que se demonstrar, se não se pode demonstrar então fica em suspenso, continua se investigando até que se chegue a demonstração rigorosa. Porém não se vai encontrar uma explicação apodítica de fatos contingentes, querer reduzir os fatos da ciência a um sentido especulativo e de raciocínios apodíticos absolutos não se vai conseguir, são sempre prováveis e este é o campo da probabilidade da ciência. É provável, por exemplo, que aquela pedra que está solta vá cair, mas não há nenhuma necessidade absoluta que ela caia, é outra coisa.


Hoje em dia se faz muitas confusão, há muitas tendências, muitas escolas. As questões que existem na escolástica são questões abertas, mas em regra geral todos os escolásticos têm uma unidade, há um pensamento entre eles que é unitário, que  forma uma unidade, dá uma corporeidade, dá uma tensão a escolástica, assim como existe no pitagorismo apesar das divergências entre os pitagóricos. Chamamos nossa filosofia de concreta, porque ela é uma filosofia positiva que busca concrecionar os aspectos positivos de todo o filosofar, tudo o que expomos demonstramos apoditicamente e o mais possível, evitando o termo médio, quer dizer evitando o raciocínio da razão, porque o raciocínio propriamente racional que é o da ciência é precisamente aquele que usa o termo médio, procuramos evitar o mais possível, embora nem sempre seja possível evitar.

Para onde vai o IslĂŁ? - Marcel de Corte Domingo, Jun 22 2008 

Para onde vai o Islã? Não parece errado afirmar que o Islã mesmo o ignora quase por completo. Esse grande corpo informe está despertando de uma longa letargia, as pálpebras fechadas, a mente entorpecida, os membros estirados e sacudidos aqui e acolá por sobressaltos involuntários. A história do Islã manifesta duma ponta à outra a estranha alternância entre torpor e exaltação.

A causa disso parece ser o atavismo nômade desse imenso agregado de povos: o Islã só se mexe e se agita quando encontra um condutor, um animador, um füher, um êmulo de Maomé. Sem a guarda do pastor com seus cães, o rebanho cai na anarquia e, pouco a pouco, na sonolência. O Islã é semelhante à limalha de ferro cuja força coesiva depende da ação do ímã.

Em outras palavras, o islã apresenta para o historiador e o sociólogo a imagem de uma força magnética sempre prestes a cair em inércia, se lhe faltar o dinamismo duma oligarquia dirigente ou a oposição duma resistência à sua passagem e expansão. As relações entre o Ocidente e o Islã, desde o séc. VII até hoje, são marcadas por fases de explosões irracionais e de estagnações também incompreensíveis. Como já dissemos várias vezes, o comportamento do discípulo de Maomé, salvo exceções, não conhece aquela medida entre o excesso e a carência, de que a inteligência grega, enraizada na ordem natural, impregnara o Ocidente há já muito tempo. O Islã é instável e descomedido. É notável que a civilização islâmica, em Bagdá ou Espanha, tenha conhecido momentos de grande esplendor, quando o dom que a Grécia legou ao mundo chegou até ela. Poucas culturas alcançaram ao mesmo tempo aquela efervescência vital e sutileza espiritual.

Essa união durou pouco: o Islã precipitou-se num movimento pendular, que podemos observar com maior clareza nas pessoas de seus adeptos, sob a forma de brutalidade explosiva revezada com uma inesperada e requintada delicadeza, ou vice-versa. É como se o Islã sempre tivesse de balançar entre as qualidades e os defeitos da barbárie, e as qualidades e defeitos da decadência.

Talvez encontremos a origem dessa instabilidade dentro da estrutura tipicamente religiosa da mentalidade islâmica e na antítese violenta estabelecida entre Deus e os homens.

Eu seria, sem Deus, mais vil qu’um bicho impuro, diz o Maomé de Victor Hugo. O Islã ignora o Cristo Deus encarnado, renovador da natureza humana assumida em sua pessoa. Maomé tem Cristo apenas por profeta. Ignora a noção de natureza renovada pelo Novo Adão. Não existe nada entre Deus e o homem. Victor Hugo exprimiu magistralmente, com outras palavras, a dualidade da alma religiosa islâmica, dividida entre o Céu e a Terra:

Filho, eu sou vil campo dos sublimes combates

Eu sou homem excelso, e homem de disparates,

O mal, dentro nos lábios, com o bem alterna,

Como é no deserto a areia e cisterna!

O islamismo não possui centro de gravidade. Não tem neste baixo mundo um ponto fixo. Não dispõe de critérios imutáveis, por faltar-lhe este Meio-Termo que é o Cristo entre o homem e Deus, e uma Igreja concebida como corpo místico, tal como Jesus Cristo a espalhou e comunicou. Oscila assim entre o fanatismo estrito, coagulando-se sob uma forma qualquer, e a pulverização entre crenças disparatadas, indo da mística até à superstição grosseira. A fé em Alá, dominante e exclusiva, mistura-se à uma multidão indefinida de seitas, enumeradas na Enciclopédia Britânica em três colunas de texto bem espremido.

As conseqüências políticas dessa atitude religiosa sempre vacilante e desequilibrada são imensas.

é lugar comum dizer que no Islã a política é apenas um prolongamento da religião. O temporal e o espiritual não são dois domínios distintos. O primeiro não se subordina ao segundo, mas se confundem. Apesar do atual processo de laicização das elites islâmicas – que vão se tornando incrédulas ou ritualistas e farisaicas - elas consideram o Islã como o mundo em si, sem fronteiras ou determinações originadas da situação terrestre do homem e da conseqüente diversidade dos agrupamentos humanos. O Islã desconhece a natureza humana e suas implicações, logo desconhece também a idéia de pátria e, no interior desta, a idéia de diferenciação hierárquica entre homens de funções desiguais. Não existe “casta” ou “ordem”, no sentido Ancien Régime: no Islã, há igualdade absoluta entre os fiéis. O mulçumano sente-se em casa onde quer que haja Islã: seu passaporte é sua fé, viva ou aparente. O marroquino ou o tunisiano não é um estrangeiro no Egito.

Assim, o Islã apresenta-se como uma sociedade sem classes, internacional ou, mais exatamente, “anacional”, onde os membros congregam-se imbuídos da mesma concepção das relações entre Deus e o homem, à maneira da sociedade sonhada por Marx, cuja instauração fora intentada pelos seguidores deste na Rússia. Bastaria o arrefecimento religioso das elites dominantes – um processo em curso desde o séc. XIX – para o Islã, assestando o olhar para a possessão da terra e as relações entre o homem e o mundo material, encontrar-se na mesma posição em que a Rússia. Não por acaso, um dos observadores mais sagazes do comunismo, o Sr. Jules Monnerot, apodou-o de “o novo Islã”. Nesse sentido, são bem acertadas as analogias entre as duas concepções de mundo.

Ademais, o Islã já exibiu no passado, donde tira sua exaltação presente, um espírito totalitário idêntico ao do marxismo. Tanto para ele como para o marxismo, a humanidade se divide em duas partes em tudo heterogêneas: os fiéis e os infiéis, os muçulmanos e os ocidentais. A filosofia materialista do marxismo é sem dúvida ainda inconcebível no Islã. Os comunistas muçulmanos são escassos. Mas essa pretensa impermeabilidade do espírito islâmico ao marxismo não vale mais que a imaginária discordância descoberta entre o espírito inglês ou escandinavo e a doutrina de Marx. Vemos na história recente a Grã-Bretanha e os países nórdicos, apesar de conservarem o verniz ideológico e elegerem uns poucos deputados comunistas, absorverem altas doses de marxismo edulcorado.

A realização da aliança entre a Rússia e o Islã, sob as nossas vistas, não vai contra a natureza. Ela origina-se de mentalidades que se correspondem e que podem vir a se identificar na confusão atual da história. Os americanos nunca interromperão essa afinidade, por meio do seu anticolonialismo pueril, se desconhecem o espírito muçulmano. Será fácil para a Rússia superá-los, ao apelar para a semelhança existente entre a atitude anti-européia do muçulmano e a atitude anticapitalista; será fácil, no momento oportuno, atiçar a primeira atitude, que já existe e se exaspera, no sentido da segunda, que ainda está informe, e daí englobar os Estados Unidos numa condenação contra todo Ocidente. Bem faria a diplomacia americana, sempre mais sensível aos elementos econômicos do problema que aos fatores psicológicos, se percebesse a astuciosa mudança de rumos.

A política estrangeira soviética não mudou desde os famosos episódios – já esquecidos das democracias, desmemoriadas! – entre Zinoviev e Enver Pasha, no Congresso de Bakou, a 1º de setembro de 1920. Ela oferece-nos os frutos dum esforço inabalável, bem diferente da diplomacia dos povos ditos livres, a quem os fatos obrigam a lastimáveis piruetas. As duas “guerras santas”, a da Rússia contra o capitalismo e a do Islã contra o Ocidente, vão acabar por se tornar uma só, se a América não abrir os olhos.

Esse quadro é bastante provável, porquanto a moral islâmica abre um campo mais vasto às paixões do espírito e ao ressentimento que a moral cristã. Eis a razão por que o Islã se vai insinuando nas populações primitivas da África: estas adotam a ética islâmica, por menos exigente. Não há quem negue, por outro lado, o florescimento do marxismo por onde se relaxe a moral. Ainda é verdadeiro aquilo de Rivarol: “se aos homens desobrigamos, os estragamos”.

Os futuros historiadores possivelmente considerarão a dissolução do Império Otomano, ratificada pelos tratados de 1918, e a estúpida destruição do Império Austro-Húngaro duas pesadas hipotecas a serem cobradas ao séc. XX. A antiga Turquia, saciada de conquistas – por sinal, bem modestas -, continha o avanço do Islã, do mesmo modo que a Áustria-Hungria esfriava a efervescência balcânica.

Além disso, esses dois sistemas constituíam um tampão contra o imperialismo russo. Hoje estamos pagando o preço dessa política cega, em que saíram ganhando o “idealismo” laico e as sórdidas preocupações econômicas. Tomara não nos seja o preço muito alto, já que, citando novamente Rivarol, a pior desgraça é a de merecer suas desgraças!

Em todo caso, é certo dizer, os nacionalismos árabes não possuem raízes nas tradições islâmicas, e evoluirão fatalmente em direção ao internacionalismo e ao pan-islamismo. A Rússia, sempre atenta, lhe dedicará mais e mais cuidados na proporção direta dos erros habituais da diplomacia dita atlântica. O único trunfo nas mãos do Ocidente é a debilidade do sentido de Estado em terras islâmicas. Hoje em dia, contudo, constroem-se Estados artificiais por meio da força. O Estado Ocidental, por seu turno, degenerou em Estado Providência, que vampiriza sua energia e suas reações vitais de defesa.

In: “La libre Belgique”, 28 de dezembro de 1956. Tradução: Permanência. 

O Culto do EspĂ­rito Santo - Mons. Gaume Domingo, Jun 22 2008 

Terceira Parte

O aspecto positivo do culto do Espírito Santo consiste na recordação da terceira pessoa da Augustíssima Trindade, rogando a ela e imitando-a; o aspecto negativo, na fuga diligente de tudo quanto possa afastar-nos dele e contristá-lo.

Afastá-lo. Essencialmente, o Espírito Santo é pureza e caridade. Como o fartum põe em fuga as abelhas, a sensualidade e o egoísmo distanciam o Espírito Santo da alma e das gentes, subjugadas a um destes vícios. Tema relevante de meditação e mesmo de temor para nossa época. Caso seja verdade que não há época em que se apresente mais alto grau de sensualidade e egoísmo [que a atual], também é verdade que nenhuma outra faz tão formidável oposição ao Espírito Santo quanto esta. Mas afastar-se do Espírito de vida é o mesmo que avocar o espírito de morte, com suas inevitáveis e desastrosas conseqüências, como já disséramos repetidas vezes.

Contristá-lo. A negligência no invocá-lo, a infidelidade no segui-lo em suas inspirações, seja por iniciativa própria,seja por direção alheia de povos ou pessoas, contristam profundamente o Espírito Santo. O desprezo de que lhe fazem objeto, a injusta preferência conferida aos oráculos estranhos, preparam as últimas catástrofes, pois que conduzem a um pecado irremissível para as nações e os indivíduos. Nomeamo-lo como pecado contra o Espírito Santo. É preciso dá-lo a conhecer, e tomara inspiremos todo o horror que ele merece!

Percorrera o Homem-Deus a extensão da Judéia, curando os doentes, livrando os possessos, ressuscitando os mortos. Possuídos de vil ciúme pela confiança que os milagres lhe conferiam, ousaram afirmar os fariseus: É em nome de Belzebu, príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios. Após refutar tamanha calúnia, acrescenta o Verbo Divino, para demonstrar-lhes a enormidade de seu crime: “Por isso, eu vos digo: todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoada. Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro”[1].

Observa-se que Nosso Senhor reprova aos fariseus o atribuir maliciosamente ao demônio os milagres, dos quais não poderiam duvidar fossem obras do dedo de Deus. Ali estava a blasfêmia e o crime. Assim, apesar das evidências, trataram as obras do Verbo Divino como obras de satã, e assim o Filho de Deus como agente do demônio, falsário e usurpador da divindade. Propriamente, é nisto em que consiste a blasfêmia contra o Espírito Santo.

“É de se notar, escreve um preclaro comentador, que Nosso Senhor não fala aqui de todo pecado contra o Espírito Santo, mas somente da blasfêmia contra o Espírito Santo, que se comete com palavras, e também com pensamentos e ações. Acontece de existir calúnias contra obras em tudo divinas e milagrosas, piedosas e santas, por que Deus obra a salvação dos homens e confirma a verdade da fé; tais, por exemplo, como a expulsão dos demônios. Enquanto obras da bondade e santidade de Deus, atribuem-se ao Espírito Santo. Daí então, os que as caluniam e, em consciência e malícia, atribuem-nas ao demônios, blasfema contra o Espírito Santo, pois que tira a Deus a santidade, a verdade, e fá-la do demônio: Ex Deu facit diabolum (Corn. a Lap., in Matth., XII, 31).

Não se restringe o pecado contra o Espírito Santo nem à blasfêmia contra o Espírito nem a um ato passageiro: estende-se à inúmeras prevaricações, constituindo um estado permanente. Segundo os padres, os teólogos e Santo Tomás em particular, divide-se esta árvore de morte em cinco galhos: são os pecados contra o Espírito Santo o desespero da salvação, a pretensão da salvação sem merecimentos ou do perdão sem penitência, o ataque à verdade conhecida como tal, a inveja das mercês que Deus faz a outrem, a obstinação no pecado e a impenitência final (Ap. S.. Th. IIª IIae, q. 14, art. 2). A razão está em que são pecados de pura malícia, sobretudo o terceiro, que é o pecado fulminado pelo Salvador.

Por que são eles pecados de pura malícia? Responde Santo Tomás: “Ocorre pecado de pura malícia, quando por desprezo repudia-se o que poderia impedir a opção pelo pecado. Por exemplo, quando repudia-se a esperança, para se deixar tomar de desespero; o temor de Deus, para se deixar dominar de presunção. Ora, muitos óbices impedem estas escolhas funestas, seja por obra dos julgamentos de Deus, dos dons do Espírito Santo ou do mesmo pecado.”

“Por obra dos julgamento de Deus: pela esperança que nasce da consideração da misericórdia daquele que redime os pecados e recompensa as boas obras. Ora, o desespero afugenta tal esperança.”

“Por obra dos dons do Espírito Santo, entre os quais dois que nos desviam do pecado: um é a inteligência da verdade. Combate contra a inteligência o ataque à verdade conhecida como tal, quando se insurge um homem contra a verdade de fé, para assim pecar mais livremente. Outro é o socorro da graça interior, cuja origem é o dom da piedade. Opõe-se a essa graça o ciúme das graças d’outrem, quando uma pessoa inveja a seu irmão, e mais ainda os progressos da graça de Deus no mundo.”

“Por obra do pecado, duas coisas distanciam-nos dele: uma é a desordem e a torpeza do ato, cuja consideração costuma levar-nos ao arrependimento do pecado cometido. Opõe-se a este meio de salvação a impenitência, entendida como vontade de não se arrepender. Outra é a brevidade e a vacuidade do bem perseguido pelo pecado, e que de ordinário impede a vontade humana de se atar ao mal. Destrói-se este renovo de salvação na obstinação, quando se aferra o pecador na vontade de permanecer em pecado. Os meios que nos impedem de escolher o mal em lugar do bem são efeitos do Espírito Santo em nós. Eis porque o pecado de malícia é pecado contra o Espírito Santo” (IIª IIae, q. 14, art. 1, corp.; e art. 2, corp.)

Acrescenta o amoroso São Francisco de Sales: “O pecado é mui próprio à natureza humana; mas amparar com teimosia a falta, querer persuadir da razão de cometê-la, chamar ao mal bem, substituir à luz as trevas, tudo são ofensas ao Espírito Santo; combater à verdade manifesta é condenar-se a si em seu juízo e ser réprobo, em todo os sentidos” (Esprit, etc., t. II, part. XI, p. 337, edit. In-8). Eis o que é em si o pecado contra o Espírito Santo; resta explicar em que sentido é ele irremissível.

A blasfêmia contra o Espírito Santo, declara o próprio Verbo Divino, não terá perdão nem neste século nem no vindouro. Não obstante, confiando à Igreja o poder das chaves, sem restrições disse-lhe: o que desligares na terra, será desligado no céu; aqueles a quem retirardes os pecados, ser-lhes-ão retirados. Intérprete infalível da doutrina da esposa, a Igreja Católica demonstra que não há contradição entre estas divinas palavras. Ensina que a palavra Redentor Universal é fiança da infinitude de sua misericórdia; que pecado algum é irremissível no rigor do termo; e, na pessoa de Novaciano, fulminou de anátema aquele que ousou sustentar o contrário.

Como há de se entender a irremissibilidade do pecado contra o Espírito Santo? Se for caso de impenitência final, o pecado contra o Espírito Santo é irremissível, em todo o rigor de sua verdade. A impenitência final é o pecado moral em que persevera o homem até a morte. Ora, não se resgata tal pecado nem neste século, nem no vindouro, pois lá não há mais redenção. Trata-se d’outros pecados contra o Espírito Santo? Deve-se entender a irremissibilidade não como absoluta, mas cujo perdão é de extrema dificuldade. A razão está em que, por sua natureza, o pecado contra o Espírito Santo não merece remissão, nem a pena nem a culpa.

Quanto à pena: o que peque por ignorância ou fraqueza parece até certo ponto escusável; em todo caso, merece punição menor. Mas o que peca em consciência e malícia, ex certa malitia, não tem desculpa, não merecendo diminuição alguma na pena. Este é o homem que peca contra o Espírito Santo.

Quanto à culpa: declara-se incurável a doença que, por sua natureza, afasta todos os meios de curá-la, por exemplo, a que tira a possibilidade de segurar qualquer espécie de alimento ou remédio, se bem que possa Deus sempre curá-la. Assim, de sua natureza, é o pecado contra o Espírito Santo irremissível, na medida em que afasta os meios de perdão, pois que se opõe ativa e diretamente ao Espírito de luz, de graça e de misericórdia. Não é dizer que se fecharam os caminhos de perdão e cura perante a onipotência e misericórdia de Deus. Como sempre pudesse curar doentes incuráveis, pode também remir pecados irremissíveis. Dêem-se-lhe graças! são muitos os exemplos destes milagres que curam a vergonha (S. Th., IIª IIae, q. 14, art. 3, corp).

Considerando o pecado contra o Espírito Santo e de suas conseqüências, não é para se temer o futuro duma época que o comete tão amiúde e por tão grande número de pessoas, de todas as condições? Mau-grado os reiterados alertas, atualmente são raros os que se obstinam na libertinagem do espírito e da alma, pondo fim a seus dias pelo suicídio, ou morrendo em bestial insensibilidade? Os que, indiferentes aos deveres essenciais da religião, presumem-se um porvir feliz após a morte, dizendo-se com o sorriso da impiedade na boca: Deus é bom demais para me danar? Os que, nas conversações, nos discursos, nos jornais, nas obras, atacam com audácia a verdade conhecida?

Os que, levando a blasfêmia a limites que o inferno não conhecia, ousam caluniar o catolicismo, o vicário de Jesus Cristo, até o Filho de Deus; além disso, acrescentar a este negrume satânico a glorificação de todo o anticristão: Judas, Nero, Juliano o Apóstata, satã? Que é isso, sobre lábios de batizados, senão o pecado contra o Espírito Santo, naquilo que se imagina de mais odioso? Que sorte está reservada às nações que dão azo ao ultraje do autor de todos os bens? Permitiu a Providência houvesse na história um fato a dar tal resposta.

Nos primeiros séculos, os gregos, conduzidos pelo espírito mau, atacavam com contumácia a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Macedônio, Fócio, Miguel Cerulário são os pais e os culpados duma longa posteridade de insultadores. Alarmada da sorte de sua irmã, a Igreja Latina não negligencia meios de restitui-la à unidade. Por treze vezes assinaram solenemente os gregos o símbolo católico, e por treze vezes o abjuraram. Em 1439, mal chegados ao Oriente, após o Concílio de Florença, riem-se de sua assinatura, retomando o caminho das blasfêmias contra o Espírito Santo.

Este último crime encheu as medidas: o novo deicida será punido como o primeiro[2]. Aqui começa, entre a ruína de Jerusalém e o saque de Constantinopla, a terrível aproximação, que aos observadores cristãos não escapou. “Para encontrar, explicavam com razão, alguma semelhança da ruína de Constantinopla por Maomé, força é remontar à ruína de Jerusalém por Tito. Para que bem soubessem os gregos que a causa do desastre fora a revolta obstinada contra o Espírito Santo, tomaram a capital, mataram o imperador e arrasaram o reino justamente aos dias da festa de Pentecostes” (Hist. univ. de l’Église, t. XXII, p. 105, 2ª édit, in-8. – Bellam., De Christo, lib. II, c. xxx, p. 431, edit. In-fol., Lugd. 1587; vide etiam S. Anton., Chronic., part. III, t. II, e. XIII, edit. Princeps).

Poucos anos antes da ruína de Jerusalém, Jesus, filho de Anano, põe-se a gritar num átimo dentro do templo: “Clamores do Oriente, clamores do Ocidente, clamores dos quatro ventos – clamores contra os novos esposos e as novas esposas, contra o povo inteiro!” Depois, correndo dia e noite nos lugares e ruas da cidade, lança incessantemente o mesmo grito, entoando com lúgubre voz: “Desgraça para a cidade! desgraça para o povo! desgraça para o templo!” Enfim, como fizesse carreira à roda das muralhas da cidade assediada, afirmava: “Desgraça para mim!” No mesmo instante, uma pedra, lançada por uma máquina, estirou-o morto no ato (Josefo, De belle judaico, lib. VII, C, XII).

Para os judeus, a voz da justiça sucederia ao apelo à misericórdia. Assim ocorreu com os gregos. Por cerca de dois anos (outubro de 1451), antes da queda de Constantinopla, o papa Nicolau V, após exaurir os meios de persuasão, ameaça-os com a ruína próxima do império: “Atéqui suportamos, lhes escrevera ele, suas procrastinações em consideração a Jesus Cristo, pontífice eterno, que sustentara a figueira estéril até o terceiro ano, não obstante se preparasse o jardineiro para cortá-la, pois que não dava frutos. Esperamos por durante três anos, para ver se, à voz do Divino Salvador, não recairíeis em vosso cisma. Pois bem! se é vã nossa espera, sereis abatidos, para que não mais ocupeis inutilmente a terra” (Apud Reginald., an. 1451, n. 1 e 2).

O Vicário de Jesus Cristo mandou um legado portando as cartas proféticas para o Oriente. Este derradeiro mensageiro da misericórdia foi o grande e santo cardeal Isidoro, arcebispo de Kiev. Grego de origem, era célebre entre os mesmos gregos, por causa do talento manifestado no Concílio de Florença. De todos os ponto de vista, era o homem capaz de restituir os cismáticos à unidade.

Os judeus pouco se deram às previsões do filho de Anano: chegaram a injuriá-lo e até maltratá-lo. Em vez de escutar a voz inspirada, preferiram seguir os falsos profetas, que os lançaram na guerra contra os romanos, prometendo-lhes o socorro do céu.

Os gregos desprezaram os avisos do Soberano Pontífice e viraram as costas a seu enviado, mostrando-se mais que nunca hostis à união. Correndo em polvorosa ao monastério, onde residia o afamado Jorge Selelatino, perguntaram-lhe que fazer. Sem dignar-se sair da cela, respondeu o monge orgulhoso por um bilhete de anátema contra os latinos, anexando-o à sua porta, onde todos liam-no como um oráculo. “Cidadãos miseráveis, dizia ele, por que vos assombrais? Renunciando à religião de vosso pais, abraçastes a impiedade e suportais o jugo da servidão. Em vez de confiar nos francos, ponde vossa confiança em Deus. Senhor, juro que sou inocente desse crime”[3].

As palavras deste homem, tido como profeta, transformam o ódio contra os latinos em fanatismo popular. As ruas de Constantinopla atroaram de seus gritos: longe de nós com os azimitas; não precisamos da ajuda dos latinos. Antes em Constantinopla a turba maometana, que a mitra de Isidoro! Não era este o clamor dos judeus, quando diziam: Tirem-no, tirem-no! Não queremos que ele reine sobre nós! Como os judeus, os gregos contam com o socorro dum prodígio para salvá-los. A cada noite, vemo-los reunir-se em assembléia pelas esquinas: e ali rogam à Virgem ajuda, bebendo em honra de sua imagem, cumulando os Ocidentais de imprecações.

Neste entretanto Tito, príncipe estrangeiro de país e religião, veio assediar Jerusalém à frente de seu povo; a terrível aparição das águas romanas diante de Jerusalém é a abominação da desolação na terra santa (Dan., IX, 26). Da parte dos romanos, ações prodigiosas para avançar as linhas de circunvalação e encerrar como um círculo de ferro, ou antes um túmulo de vivos, Jerusalém e seus habitantes. Da parte dos judeus, a vertigem do orgulho e o furor da guerra civil. Pressionados pelos inimigos desde fora, dividem-se em facções que se despedaçam, pintando em Jerusalém a imagem do inferno.

Maomé II, príncipe estrangeiro de país e religião, aparece sob os muros de Constantinopla à frente de seu povo. Compunha-se esse povo de infiéis de trezentos mil soldados, acompanhados duma frota de quatrocentos navios; a formidável aparição do crescente diante de Constantinopla era a abominação da desolação em terra cristã. Neste entretanto Maomé II, ardendo em desejo de vitória, arma os acampamentos, assesta as máquinas e dispõe as bocas de fogo. Bem logo senhores de toda as iniciativas, os sitiantes atingem de cada vez mais perto as muralhas, cavam as fossas, abrem brechas e se preparam para o assalto.

Em vez de se unirem, os gregos, à imitação dos judeus, dividem-se mais e mais. Os que parecem aceitar o dogma católico acerca do Espírito Santo são visto como ímpios. A grande igreja de Santa Sofia, que era para Constantinopla o que era o templo para Jerusalém, por servir de local de reunião para católicos, “para os cismáticos, não passava dum templo pagão, um retiro de demônios, não havendo ali nem círios nem lâmpadas. Nada mais que uma escuridão medonha e triste solidão, funesta imagem da desolação, onde nossos crimes terminariam por destruí-lo em poucos dias”. (Michel Duces, c.xxxvi). Era tal a cegueira de ódio ou o excesso de covardia, que numa cidade de trezentas mil almas não se achou mais que sete mil cidadãos e dois mil estrangeiros para defendê-la.

Como os sicários de Jerusalém, esta pequena tropa realizou prodígios de valor. Mas seus esforços apenas irritaram Maomé, como os dos judeus só serviram de exasperar Tito. Fecharam o porto de Constantinopla com uma forte corrente, inutilizando a frota otomana. Maomé concebera o prodigioso desígnio de aportar as embarcações, mandando conduzi-las por cima de um promontório e deslizá-las por toras besuntadas de sebo, até ao pé dos bastiões de Constantinopla. O trabalho deu-se durante a noite e, aos primeiros raios do dia, estupefatos os gregos se deparavam com a tropa inimiga em seu porto.

Após furiosos combates, Tito conquista a primeira e a segunda muralhas de Jerusalém; depois, a terceira e a cidadela de Antônia, ligada ao templo por um pórtico. Não podendo conter os sediciosos, abandona a cidade à pilhagem. Seus soldados cometem ali horrores; reduzem o templo a cinzas; não sobra pedra sobre pedra; passam a charrua por sobre a cidade deicida.

Próximo a Constantinopla por terra e mar, Maomé marca o assalto geral para 27 de maio, iluminando todo seu campo com archotes. Numa manhã de 28 de maio, começa o ataque. Como o de Jerusalém, prolonga-se pelo dia e parte da noite, com inacreditável encarniçamento. Ao fim, em 29 de maio, segunda festa de Pentecostes de 1453, uma hora depois da meia-noite, Constantinopla cai em poder dos turcos.

Deste modo, enquanto a Igreja latina, em pia assembléia nos templos, celebra com regozijo o aniversário solene do descenso do Espírito Santo sobre o mundo e proclama em altíssono sua precessão do Pai e do Filho, os gregos, que a negaram com blasfêmia, são esmagados sob as ruínas de sua capital, recebendo sobre as orgulhosas cabeças o jugo de ferro da barbárie muçulmana.

Conclui-se daí que as duas terribilíssimas catástrofes mencionadas pela história, a ruína de Jerusalém e o saque de Constantinopla, ocorreram em punição a pecados contra o Espírito Santo – o primeiro, como espetacular punição; o segundo, como não menos espetacular maldição.

O que os romanos fizeram a Jerusalém não se compara ao que os turcos perpetraram em Constantinopla. Qual os judeus, desbaratados, que se refugiaram no templo, os gregos, desnorteados, se refugiaram na grande igreja de Santa Sofia. Templo e teatro viraram palco de tamanhos horrores, que a história a custa ousa esboçar-lhe a lembrança. Escutemos todavia uma testemunha ocular. É o cardeal Isidoro em pessoa, grego de nação, que nos vai pintar a desolação de Constantinopla, à imitação doutra testemunha ocular, Josefo, judeu de nação, que a Providência escolheu para transmitir à posteridade a descrição do saque de Jerusalém[4].

Eis algumas linhas da narração: “Maomé, cercado de seus vizires, ao entrar em Constantinopla, recebeu a cabeça do imperador Constantino da mão de dois soldados. Ele mandou-a fincar no cimo duma coluna, onde permaneceu até a noite. Depois, ordenou descarná-la e empalhá-la, para enviar como troféu aos príncipes turcos, na Pérsia e na Arábia” (Apud S. Anion, pars historial., fol. 188, V, XIV, edit. in-fol).

Foi desta maneira que Tito, após exibi-los em espetáculo aos romanos, mandou degolar na prisão de Mamertino a Simão de Gioras e João de Giscal, príncipes dos judeus.

“Depois do ultraje ao vencido, adentra Maomé em Santa Sofia e assenta-se sobre o altar, como se deus do templo, em lugar do Verbo Encarnado, de quem assim se proclama adversário. Os soldados como que já tinham degolado os que se encontravam no lugar santo. Acrescentando à crueldade o sacrilégio, cobrem de escarros, quebram, calcam aos pés as imagens de Nosso Senhor, de sua augusta Mãe, dos santos e mártires. Rasgam os Evangelhos e os livros de oração. Metidos nos sagrados ornamentos, profanam da maneira mais revoltante os vasos sagrados, as relíquias dos santos, e quanto há de mais venerável na religião” (Apud S. Anion., ubi supra).

No templo e em Jerusalém, na igreja de Santa Sofia e em Constantinopla, tudo é massacre e abominação. Pereceram onze mil judeus durante o sítio, os demais vendidos como escravo. Ligados em correntes, usados em trabalhos públicos, reservados para as lutas de gladiadores, este tropel de deicidas exibem, por toda a terra, o espetáculo vivo da predita desolação; já são dezoito séculos que as gerações contemplam o cadáver do povo dependurado no cadafalso da justiça divina.

Semelhante espetáculo em Constantinopla. Padres, religiosos, religiosas, mulheres, crianças, velhos, tudo quanto sobreviveu, transformando-se em prenda dos vencedores, amontoou-se nas praças e se vendeu como bestas. Vêem-se os príncipes, os barões, os grandes senhores arrastados por cordas ao pescoço, vergastados de chicote, comprados na qualidade de quaisquer homenzinhos, a serem utilizados como pastores de bois e de porcos (Apud S. Anion., ubi supra). Enfiaram o grosso da população em galeras, que prestas enfunam vela para todas as direções. Durante muito tempo, os portos de Ásia e África viram expostos, em temíveis mercados, longas filas de escravos, que como os judeus foram dispersados aos quatro ventos, para ensinar a todos os povos o que acontece ao povo que ousa dizer ao Espírito Santo: não queremos que vós reineis sobre nós: Nolumus hunc regnare super nos.

A exemplo de Jerusalém, Constantinopla foi tão a miúdo despovoada, que Maomé não deixou nem grego, nem latino, nem armênio, nem judeu, diz o cardeal: Nullum incolam infra reliquerunt non Graecum, non Latinum, non Armernum, non Judaeum. Deste modo, cumpriu-se nos gregos, deicidas da terceira pessoa da Santíssima Trindade, a ameaça que se cumpriu nos judeus, deicidas da Segunda. “Não quisestes servir ao Senhor na alegria, no regozijo de coração e na abundância de bens; servireis pois ao inimigo, que vos enviará o Senhor, na fome e na sede, na nudez e na indigência, e porás sobre vossas nucas um jugo de ferro que vos esmagará. O Senhor indisporá contra vós uma nação longínqua, ágil como a águia, cuja língua não compreendereis. Nação orgulhosa e cruel, sem cuidado com os velhos, sem compaixão com as crianças, não vos deixará coisa alguma, abaterá vossas muralhas e vos aniquilarás pelo massacre e pela dispersão” (Deuter., XXVIII, 48 et seq).

Desde o cumprimento literal da divina ameaça, os gregos vivem sob o jugo tirânico dos vencedores. Mesmo hoje[5], depois de quatro séculos de humilhações e maldições, este povo, qual os judeus, tem olhos e não vêem, ouvidos e não escutam, memória e não se lembram, inteligência e não compreendem a formidável lição que lhes infligiu Deus, como punição da revolta obstinada contra o Espírito Santo.

Nações do Ocidente, não vos deixeis escapar esta lição. Eis o que nos resta desejar no encerramento duma obra em que se demonstra a ação permanente e soberana do Espírito do bem e do espírito do mal sobre a humanidade, desde o começo dos séculos. Testemunhando quanto custa pecar contra o Espírito Santo, aprendamos a retificar pensamentos e temores. Face ao espetáculo da corrupção dos costumes, da fascinação pelo frívolo, do esquecimento geral dos santíssimos deveres, tremamos pelo futuro; mas tremamos sobretudo à consideração do pecado contra o Espírito Santo, hoje em dia tão usual.

Possam os governos, mais ainda que os governados, levar a sério a sentença que prolatou o legislador supremo contra os blasfemos do Espírito Santo, e lembrar-se de que, tão imutável quanto à verdade, esta sentença está sempre suspensa sobre as cabeças das sociedades que os imitam ou toleram!

Possam, na vida pública e na vida privada, nunca se esquecer que ao homem cá embaixo sempre se apresenta a fatídica alternativa de viver sob o império do Espírito do bem, ou sob a tirania do espírito do mal; que o primeiro é o Espírito da vida, vida intelectual, moral, social, eterna; que o segundo é o espírito da morte e que, antípoda do Espírito da vida, produz morte sob todos os títulos, a todos os indivíduos – morte esta eterna, à que conduz pelo caminho da iniqüidade, do opróbrio e da servidão; a todas as nações, que não possuem corpo para irem ao outro mundo, a morte social à que lhes conduz por meio de catástrofes inevitáveis.

Em resumo: Caso o mundo se perca pelo espírito do mal, só o Espírito do bem poderá salvá-lo.

Ainda lhe resta inteligência o bastante para compreender isto, Deus o sabe. O que sabemos é que uma só potência é capaz de anunciar esta verdade capital, na plenitude de sua força e liberdade.

Só ele tem palavras de cura, todas as palavras, para os reis, assim como para os súditos; pois que só ele tem palavras de vida, todas elas. Não há duvidar, como ele à coragem do dever acrescenta a inteligência dos tempos, ver-se-á que a encarniçada luta atual, que se estende por todo o globo, dá-se entre a negação absoluta e a afirmação absoluta, entre o catolicismo do mal e o catolicismo do bem, entre satã e o Espírito Santo, combatendo pela vitória definitiva, pessoalmente, como que corpo a corpo, cada qual liderando seus exércitos.

Em presença de tal espetáculo, o mais solene da história, inflama-se seu zelo de novos ardores, como São Paulo em vista de Atenas idólatra. Soldado experto, mas incompreendido, o clero não se deixará desencorajar nem pela impossibilidade moral da empresa, nem pelos desprezos do mundo, nem pela torpeza dos falsos irmãos. Os pescadores da Galiléia não defrontaram César e os bárbaros? Perseguidos e execrados, acaso foram eles vencidos? Para dar lugar ao Deus do cenáculo, não viu satã seus altares despencarem do alto do Capitólio e desfazerem-se no pó? O braço do Onipotente não se atrofiou. Ademais, para nós católicos, padres e fiéis, a luta não é especulação, mas dever. Qual que seja o porvir das sociedades, sucederemos na formação de nobres vencedores ou nobres vítimas.

Que doravante se apregoe o Espírito Santo por todo canto, para que retome na vida das nações o lugar que lhe é devido, e que nunca devera perder. Negligenciado por tempo demais, refloresça seu culto nas cidades e nos campos, depare-se freqüente como a respiração a ardente oração do profeta-rei sobre os lábios dos católicos do séc. XIX: Enviai o vosso Espírito Santo, e tudo será criado, e renovareis a face da terra – Emitte spiritum tuum, et creabuntur, et renovabis facien terrae (Ps. CIII).

Aí, e somente aí, está a salvação do mundo.

Paris, na festa de Pentecostes,

 aos 15 dias do mês de maio  do ano da Encarnação de N.S.J.C. de 1864.

Fonte: O Tratado do Espírito Santo;

Tradução: Permanência


[1] Ideo dico vobis: Omne peccatum et blasphemia remittetur hominibus: Spiritus autem blasphemia non remittetur. Et quicumque dixerit verbum contra Filium hominis, remittetur ei; qui autem dixerit contra Spiritum sanctum, non remittetur ei neque in hoc saeculo, neque in futuro. Matth., XII, 31, 32; Marc., III. 29; Luc., XII, 10. Santo Tomás explica nestes termos a diferença entre a blasfêmia contra o Espírito Santo e a blasfêmia contra Nosso Senhor: “Jesus Cristo usava dalgumas coisas como homem, o beber e o comer; e doutras como Deus, expulsar os demônios, ressuscitar os mortos. Essas últimas fazia-as em virtude de sua própria divindade, na operação do Espírito Santo de que, como homem, estava cheio. Em primeiro, cometeram os judeus a blasfêmia contra o Filho do Homem, apodando-o de voraz, bebedor de vinho, amigo de publicanos. Em seguida, blasfemaram contra o Espírito Santo, atribuindo ao demônio o que obrava em virtude de sua própria divindade e na operação do Espírito Santo. IIª IIae, q. 14. art. 1, corp.

[2] Apodamos os gregos de deicidas do Espírito Santo, no mesmo sentido que São Paulo chama os que, por seus pecados, crucificam novamente o Verbo Incarnado. Heb., VI, 6.

[3] É bem saber que este Escolário ou Genado, estando em Veneza, mostrava-se como um dos mais impressionados diante do Papa, para que fosse louvado como o principal autor da reunião.

[4] Para escapar à morte, o príncipe da Igreja disfarçou com seu hábito de cardeal um cadáver, de que os turcos deceparam a cabeça, levando-a depois ao sultão com o solidéu vermelho.

[5] Mons. Gaume escrevia isto em 1864 [N. da P.]

Domingo, Nov 18 2007 

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A Temperança, virtude desaparecida Domingo, Nov 18 2007 

Marcel De Corte

I

Refletir, publicar, escrever sobre a temperança é hoje um desafio. A palavra desapareceu do vocabulário do homem médio, assim como do vocabulário da “elite” intelectual, laica ou religiosa. Quanto a nós, a última vez que a escutamos foi no início do século, em nossa infância, quando o professor instava-nos, à saída da escola, a aderir à uma “sociedade de temperança” ― como as muitas que então havia na Bélgica ― cuja específica finalidade era combater, não as incontáveis formas da intemperança, mas o alcoolismo, que afligia um pouco por toda parte, particularmente na classe operária. O petit Robert dá a ela apenas dois sentidos; um, “didático”: moderação em todos os prazeres do sentido; outro, “corrente”: moderação no beber e no comer, mais especialmente no consumo de bebidas alcoólicas. Ambos se volatilizaram tanto da linguagem da sociedade contemporânea como da terminologia dos moralistas contemporâneos. À exceção de alguns “paleotomistas”, cuja leitura ainda faz nossas delícias, não a encontramos em parte alguma durante um meio-século, nem mesmo nas conversas.

Não podemos sequer dizer com Valéry que «toute chose m´est claire à peine disparue; ce qui n´est plus se fait clarté». Além da palavra que a designa, é a realidade mesma da virtude da temperança que se evaporou da alma dos homens entregues às delícias da “sociedade de consumo” e, daqui a pouco ― ou mesmo, a partir de agora ― aos suplícios da moderna economia materialista em plena crise. Os cristãos ― os católicos ― não escapam desse saldo negativo, tanto no ensino que recebem quanto em sua conduta. A este respeito, estamos em situação idêntica a do fim do Império Romano, tal como veementemente a descrevia Santo Agostinho: «onde encontrar quem, diante de tais monstros de avareza, orgulho e luxúria [1], cuja iniqüidade, cuja impiedade execrável constrange Deus a flagelar a Terra, conforme antiga ameaça, quem, volto a perguntar, seja perante eles o que deve e com eles conviva como é preciso conviver com semelhantes almas? Quando se trata de esclarecê-los, censurá-los e, mesmo, repreendê-los e corrigi-los, com bastante freqüência, funesta dissimulação nos detém, ou preguiçosa indiferença, ou respeito humano incapaz de afrontar alguém já de si perturbado, ou temor a ressentimentos que poderiam causar-nos prejuízo e prejudicar-nos no tocante a esses bens temporais cuja possa nossa cupidez cobiça, cuja perda nossa fraqueza receia.» [2]

 

Para que fosse diferente, seria preciso que a temperança fosse professada como virtude e mesmo como virtude cardeal que, apesar do lugar que ocupa, depois da justiça, da prudência e da força, não deixa de intervir, se exercida, em quase todas finalidades da vida cotidiana do homem. Como estamos distantes disso! Ora, a temperança é uma virtude, i. é, no sentido esquecido da palavra, uma disposição natural que inclina ao que é segundo a razão: o nome mesmo de “temperança” o indica, pois significa uma certa moderação, um “temperamento”, ou, em termos precisos, uma certa “medida no julgamento e na conduta”; enfim, uma “solução adequada” aos problemas que envolvem os prazeres que o homem não deixa de experimentar no curso de sua vida [3]. Esta medida que a razão impõe às ações e às paixões humanas é o sentido geral da palavra “temperança”. Em seu sentido mais restrito, que a define como virtude, a “temperança é a virtude que põe um freio à concupiscência que mais fortemente atrai o homem. Ela tem, pois, uma matéria especial” [4]: a concupiscência de bens sensíveis que todos desejamos e, particularmente, o deleite de tocar o que nos parece atraente e que é tanto maior quanto os atos que se dirigem a eles provêm de um impulso de nossa natureza, a saber, daqueles responsáveis por conservar a natureza do indivíduo ― o comer e o beber ― e a natureza da espécie ― a união do homem com a mulher. A temperança, portanto, trata do prazer do tato, que é, de acordo com Aristóteles e com o bom senso, a raiz de todas as sensações [5]. Coisa que observamos nas expressões populares, que se referem a um espetáculo dizendo que agride a vista; de um barulho, que nos fere os tímpanos; de um perfume, que acaricia o olfato; de um vinho inebriante, que seu buquê envolve o paladar. Essas metáforas são muito sugestivas.

Santo Tomás distingue um elemento principal entre os prazeres do tato que a temperança deve regrar, e que servem à conservação e à transmissão da vida humana ― a deleitação essencial, essentialem delectationem, que acompanha tanto o consumo de alimento e de bebida como o uso da mulher, que são de necessidade vital para a humanidade ― e um elemento secundário que acompanha o primeiro para torná-lo mais agradável, qual seja, a beleza e a elegância da mulher ou o sabor e o aroma dos alimentos. O necessário uso sempre se dá pelo contato. Os outros sentidos só intervêm para dar ao tato determinações subsidiárias que acrescentam um agrado específico. Ora, como estas complementações dão relevo a todos os demais sentidos que não o tato, é preciso dizer que a temperança diz respeito sobretudo ao tato e acessoriamente à visão, ao paladar, ao odor e à audição. Isso não é mera sutileza. Sendo próprio do filósofo distinguir o essencial do acessório que o acompanha, é preciso dizer, nesse caso, que o prazer, no primeiro sentido do termo, está ligado intimamente ao ato de comer e de beber, assim como ao ato de procriar, sem que o prazer, no segundo sentido, necessariamente esteja. Santo Tomás sempre orienta seu pensamento profundamente objetivo à essência mesma das coisas. Importa, pois, concluir com ele sobre esse ponto, que “a temperança e a intemperança só se relacionam de forma secundária aos prazeres do paladar, do odor ou da visão, na medida em que as impressões desses sentidos contribuem para o uso deleitoso das coisas necessárias à vida, as quais dependem do tato" [6]. Todavia, eles estão concretamente ligados ― tal como o acidente é inseparável da essência, sem que aquele se confunda realmente com essa.

Se é verdade que a virtude ― e aqui cada palavra tem peso ― é “uma disposição estável para o bem agir, cujo sujeito próprio é a faculdade voluntária dum ser inteligente” [7], a temperança é não apenas uma virtude própria ao homem ― como ser virtuoso sendo um intemperante? ― mas também uma virtude cardeal, uma virtude fundamental, em torno da qual giram, como ao redor de um gonzo (cardo), uma série de outras virtudes, semelhantes a uns feixes que se subordinam e a subdividem; uma virtude em que se exprime, de modo eminente, a ordem da razão no que diz respeito às ações humanas. Ora, a temperança introduz uma ordem particularmente digna de elogio (praecipue laudabilis) nas manifestações do ato de tocar, exatamente onde a vida humana a exige imperiosamente [8]. Deste modo, como veremos, ela domina uma longa série de virtudes adjacentes que nossa época desconhece vergonhosamente. Enquanto virtude, ela rege os prazeres sensíveis e as concupiscências carnais que acompanham necessariamente a vida do homem e, enquanto virtude cardeal, os demais prazeres e concupiscências análogas, que são regulados por outras virtudes conexas que se ligam, seja à título de condição, de espécies de que a temperança é o gênero, ou de energias morais que lhe são conexas ou aparentadas [9].

Está claro, além disso, que as realidades nas quais se exerce a temperança são mais necessárias à vida que aquelas das virtudes subordinadas, e que são mais naturais ao homem. Não se trata aqui da vida em geral, mas da vida vivida. Com efeito, se é verdadeiro dizer que “o bem tem razão de fim e que o fim é, ele mesmo, a regra do que se ordena ao fim”, e que “todas as coisas que se apresentam ao uso do homem como deleitáveis devem ser ordenadas ― e este é o ofício da temperança ― tanto à vida presente como ao seu fim”, no ato concreto em que ela se exprime e, portanto, de acordo com o lugar e o tempo, as condições sociais em que se dá por nascimento ou de acordo com a profissão que exerce (officia), segundo as congruências daqueles com os quais vivemos [10].

Há portanto que se levar em conta, no exercício da virtude da temperança, as realidades exteriores, as riquezas que possuímos, as funções que ocupamos e, acima de tudo (multo magis), a honestas, i. é, o caráter honorável, a estima e a honra com que nos revestimos, a consideração social que nos envolve [11]. Em Santo Tomás, nenhuma virtude cardeal ― ou qualquer outra que lhe seja associada ― é personalizada, como temos demasiada tendência em fazer hoje em dia; o laço íntimo e profundo das virtudes com a sociedade, com a política (no sentido etimológico e nobre do termo) é sempre destacado por ele. O único fato de que a temperança depende essencialmente da vida presente, que é sempre uma vida social ― nenhum homem é um selvagem solitário, ou um deus ― bastaria para atestar isso.

Ainda que “a temperança apenas modere as concupiscências e prazeres individuais” [12] e que, por isso, se mostre inferior à justiça e à força, que pertencem mais ao bem da sociedade, ela não deixa de estar, por sua vez, orientada para o bem social, não somente porque procede das diretivas que a educação acrescenta à natureza [13], mas ainda e sobretudo porque ela está condicionada pelo pudor e pelo senso de honra, suas partes integrantes, que são sentimentos precisamente ligados às relações sociais e aos olhares dos demais [14]. A intemperança, de resto, sempre desvia o homem de seu justo fim [15] ou de seu fim último, que, na ordem temporal, é o bem comum da cidade onde vive. A matéria da temperança individual ― o comer e o beber ― está ordenada à união carnal, tal como o fim particular está ao fim último [16]; e a união carnal, por sua vez, à continuidade da espécie.

 

Podemos dizer, de acordo com Santo Tomás, que a temperança se apoia na moderação das duas formas fundamentais de prazer naturalmente suscitadas pelo tato; e que a temperança implica, sem deixar de levar em conta as circunstâncias de lugar, de tempo e de situação social, um equilíbrio entre a natureza racional do homem e seu componente corporal, tão natural quanto a primeira, em que o tato ocupa lugar essencial. A palavra grega sôphrosunê, que traduz temperantia, mostra isso bem. Ela é composta por um adjetivo (sôs), que significa são e de um substantivo (phrên), que designa o envoltório, a membrana de algum órgão que o mantém em unidade e, particularmente, a alma, o coração, a sede dos sentimentos e das paixões. O homem temperante é aquele cujo espírito saudável equilibra ― como o faz a saúde dos órgãos do corpo ― as paixões do coração e, mais especificamente, as paixões do concupiscível, da parte da alma pela qual desejamos necessariamente as coisas do mundo indispensáveis à nossa vida e à da espécie. Requer-se uma harmonia entre a inteligência prática, mãe da ação, e as paixões do concupiscível que fazem parte de nossa natureza. Esta harmonia não é, em última instância, repressão, punição, sufocamento. Como bom discípulo de Aristóteles, Santo Tomás sabe que a alma e o corpo são complementares, e sua fé cristã na ressurreição confirma-o em sua filosofia realista. Para ele, não se trata de suprimir as paixões, mas de impregná-las da vida do espírito, que necessariamente as faz integrar-se à sua vida temporal e à sobrenatural. Trata-se menos ainda de ser moderado no que toca as paixões do concupiscível no sentido moderno da palavra, o qual implica a idéia de pouca intensidade, duma certa fraqueza, dum distanciamento de todo o excesso. Com efeito, se a virtude é um justo meio entre o excesso e a carência, é notável que as paixões do concupiscível manifestem-se antes de forma exuberante, e que a insensibilidade perante elas testemunhe uma carência na constituição natural do homem, pois “a natureza juntou o prazer às operações necessárias à vida do homem”. Seria até mesmo um pecado, acrescenta Santo Tomás, fugir ao gozo que lhes é inerente, assim negligenciando as necessidades desejadas por Deus para a conservação da natureza.

Contudo, uma precisão deve ser dada a esta alegação. Sendo a natureza um sistema hierarquizado de fins, é louvável e até necessário abster-se dos gozos que acompanham as necessidades da vida presente em vista dum fim mais alto, seja temporal ou sobrenatural. Jejuamos para a boa saúde do corpo. Abstemo-nos de bebidas alcoólicas pelo esporte. Restringimos o comer e o beber à guisa de penitência pelos pecados. Os padres, votados às coisas divinas, renunciam ao casamento. Nada disso é insensibilidade, pois tudo isso visa, conforme a resolução mesma da razão reta, a fins cada vez mais altos, muito superiores ao simples trato da vida individual e ao da espécie. Não obstante, é preciso defender energicamente com Santo Tomás que “o bem da razão não pode existir no homem ― dotado de corpo ― se se abstém de todo prazer” [17], e que “aqueles a quem cabe, por razão do oficio que exercem na sociedade, entregar-se aos trabalhos corporais os quais exigem maior abundância de alimento e bebida, ou à geração carnal para assegurar a permanência da família e da cidade, não mereceriam louvor se se abstivessem do prazer” [18].

Sem dúvida, a temperança ocupa o último lugar no cortejo das quatro virtudes cardeais. Ela é inferior à prudência, que adapta com proporção os meios ao fim último perseguido ― seja bem temporal ou bem sobrenatural ― e que é a recta ratio agibilium, a regra objetiva do bem que se deve fazer, e que, para ser alcançado, deve ser o justo meio entre o excesso e a carência. Ela é inferior à justiça, que regula nossas relações com os outros homens e que visa o bem comum, particularmente o da união. Ela é inferior à força, que enfrenta a morte para a salvação pública [19]. Diz Santo Tomás que ela apenas tempera “as concupiscências e os prazeres que se relacionam ao homem em si (ad ipsum hominem)” [20], mas esta expressão, certamente extensa, não visa o indivíduo enquanto tal ― ou a pessoa ― mas o aspecto naturalmente subjetivo do prazer num ser que, por sua natureza, é intrinsecamente social, um “animal político”. O prazer é experimentado subjetivamente ― e a temperança possui um caráter subjetivo ― não no sentido moderno do termo, de um objeto aparente, ilusório, ou de uma puro recolhimento em si mesmo, mas enquanto é da essência mesma do homem de experimentar prazer com o alimento, com a bebida ou com o sexo, realidade cujo caráter social não podemos negar. A inferioridade da temperança em relação às demais virtudes cardeais reside no fato de que estas têm, na ordem das essências, um objeto mais elevado que aquela. A temperança liga-se estreitamente à prudência pois modera as paixões do concupiscível e conserva-as num justo meio razoável entre o excesso e a carência. Ela se une à justiça pelos atos e pela rejeição à intemperança, vício essencialmente próprio ao indivíduo dedicado ao seu prazer pessoal. Ela é companheira da força, que luta pelo bem comum, já que é impossível ser forte sem ser temperante.

Não há nenhuma outra virtude que esteja em mais estreita conexão com todas as demais ou que lhe seja mais extensível: quase todas as virtudes, cardeais ou não, tem necessidade da temperança para se levar a efeito. Seu uso é freqüente, cotidiano, e, se a força a supera “dum certo modo” (quoad aliquid) por seu aspecto social, por sua freqüência necessária e pelos vínculos concretos com as demais virtudes, a temperança pode encontrar a preferência do moralista, não somente em relação à força, mas “mesmo à justiça” [21]. Ela é uma virtude viril e santo Tomás, seguindo Aristóteles, comenta com precisão que seu contrário “é um pecado de concupiscência” excessiva que, de ordinário, atribuímos às crianças [22]. Igualmente destaca, acompanhando “o mestre daqueles que sabem”, que a intemperança é um vício mais grave que a pusilanimidade, porque é mais voluntária, mais própria do homem feito. O pusilânime tem quase sempre o espírito paralisado diante do perigo da morte física ou moral; é mais sujeito aos impulsos exteriores que sofre, mais sensível aos riscos e às ameaças em geral. O intemperante é atraído pelos gozos particulares, adjacentes ou acessórios às concupiscências da natureza. Ora, “é pura e simplesmente mais voluntário o que é voluntário nas ações singulares, nas quais culminam a virtude ou o vício, no sentido próprio dos termos” [23].

Mas, indo um pouco além, estas ações singulares não estão isoladas de seus prolongamentos sociais. A vergonha que se associa à intemperança se opõe à honra e distinção da virtude contrária. Sem dúvida, a intemperança é freqüente em meio à humanidade, e sua repetição, por demais visível, parece diminuir a vergonha e a desonra que se associam a ela na opinião dos homens. Todavia, elas não se apagam completamente dali: a natureza do vício ao qual sucumbe o intemperante, marcada por sua gravidade, opõe-se a isto. Demais, os estigmas deixados pela intemperança sobre o aspecto do homem ― a abjeção de sua conduta libidinosa ― apagam, diz-nos Santo Tomás com profundeza, o brilho e a beleza inerentes ao homem temperante, equilibrado, dono de si, seguro das finalidades que persegue, e cuja razão ilumina, por sua transparência, os atos virtuosos [24]. Um visível envilecimento caracteriza o libidinoso e, na mulher, os artifícios que o dissimulam só acentuam a ausência de castidade. Todos esses sinais, ao mesmo tempo individuais e sociais, cujos sentidos são evidentíssimos, manifestam que o homem ou a mulher entregues à intemperança se rebaixam ao nível do animal, destruindo em si as marcas do seu caráter verdadeiramente humano.

(Itineraires no. 250, Fev/81 Tradução: Permanência)

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Notas:

 

[1] O orgulho e os outros vícios enumerados aqui por Santo Agostinho são, como veremos, anexos da intemperança, segundo Santo Tomás.

[2] A Cidade de Deus, Ia. parte, cap. 9. Editora Vozes, São Paulo, 1991

[3] Suma Teológica (doravante S. T.), 2-2, 141, 1, conclusão (c.) e ad 1.

[4] Ibid., 141, 2.

[5] 141, 3 e 4.

[6] 141, 5.

[7] 1-2, 56, 4, c.

[8] 141, 7 e 1-2, 61, 3 e 4.

[9] Estes três tipos ou partes da virtude são chamadas tecnicamente partes integrantes ou condições que concorrem necessariamente à formação da virtude; partes subjetivas ou diversificação da virtude segundo as diferenças específicas de sua matéria ou de seu objeto; partes potenciais ou virtudes secundárias que têm uma matéria diferente da virtude principal, mas que, como ela, observam uma medida idêntica, em sua matéria, àquela que exerce a virtude principal em sua matéria própria. Os tomistas falam pouco disso, ou simplesmente não falam. Eles consideram esta divisão das virtudes como “escolástica”, quiçá desprezível. Contudo, em se considerando o real, a virtude é uma como árvore vigorosa, condicionada pelo terreno em que se enraíza, pelas espécies variadas nas quais se diversifica e pelos ramos que distribuem sua seiva, tal como seu caule faz para com estes. Longe de ser uma divisão incômoda, estéril e abstrata, esposa-se estreitamente com a realidade.

[10] 141, 6, c e ad 1, 2, e 3.

[11] Santo Tomás lia e encontrava melhor desenvolvida em Cícero a noção de honestas, muito mais abrangente que “a honestidade” moderna, quase exclusivamente centrada no dinheiro.

Cf. H. MERGUET, Lexicon zu den philosophischen Schriftan Cicero’s. Iens, 1892, s. v. Podemos consultar também N. THEIL, Grand dictionnaire de la langue latine du Dr. Guill. Freund traduit en français. Paris, 1867, e o Glossarium mediae et infimae latinitatis de Du Cang, Paris, 1843.

[12] 141, 8, c.

[13] 142, 2, c.

[14] 143, art. Único, c, e 145, 1, ad 2. Cf. a citação de Aristóteles efetuada por Santo Tomás em 144, 3, sed contra: “Os homens ruborizam-se mais freqüentemente perante os que sempre estarão presentes que perante seus parentes”. O outro, em sentido forte, possui um olhar de qualquer modo mais objetivo que aquele dos parentes, inclinados a perdoar, sobretudo porque o homem teme mais a censura das pessoas que lhe são próximas e com as quais vive continuamente; isso resulta, para ele, um dano quase permanente (144, 3, c)

[15] 148, 2, c.

[16] Trata-se aqui evidentemente do fim último temporal.

[17] 142, 1, ad 2.

[18] Ibid.

[19] Ver nossos trabalhos De la Justice, De la Prudence, De la Force, publicadas pelas edições Dominique Martin Morin, de Paris.

[20] 141, 8, c.

[21] 141, 8, ad 3.

[22] 142, 2.

[23] 142, 3, este artigo inteiro é duma precisão e duma análise admiráveis.

[24] 142, 4; cf. 3 Eth., lect. 20. Cf. 141, 2, ad 3; 145, 2. Lembremo-nos que de acordo com a metafísica tomista o belo é um transcendental que emana do verdadeiro: splendor veri. Um homem verdadeiramente homem é sempre belo, quaisquer que sejam as irregularidades de sua aparência. Sua alma ― sua reta razão bem dirigida ao fim pelas virtudes cardeais e pelas outras virtudes ― ilumina seu corpo, o qual domina. Notemos também o misterioso sentimento de vergonha que o ato sexual não deixa de inspirar. Esse ato nada tem que seja naturalmente público, não obstante a licença dos costumes atuais. É que a alma, não comandando mais completamente o corpo desde o pecado original, é humilhado pela besta que ela não mais controla inteiramente e que, na maioria dos casos, visa mais ao prazer que à procriação, o que dar-se-ia (junto com o prazer) se o homem e a mulher não tivessem pecado.

AS SETE DORES DE NOSSA SENHORA Santo Afonso Maria de LigĂłrio (1696-1787) Domingo, Nov 18 2007 

AS SETE DORES DE NOSSA SENHORASanto Afonso Maria de Ligório (1696-1787)        I.    A primeira dor de Maria Santíssima:PROFECIA DE SIMEÃOE uma espada traspassará a tua própria alma (Luc. 2,35) O Senhor usa esta compaixão conosco, de não nos deixar ver as cruzes que nos esperam, as espadas que atravessarão nossos corações, afim de que tenhamos de sofrer uma só vez. Maria Santíssima, ao contrário, depois da profecia de São Simeão, tinha sempre diante dos olhos e padecia continuamente todas as penas que a esperavam na Paixão do Filho. Mas se Jesus e Maria, inocentes, tanto padeceram por nosso amor, como ousamos lamentar-nos nós, que somos pecadores, quando temos de padecer um pouco pelo amor deles? - E crescia Jesus em sabedoria, em idade e em graça, junto de Deus e junto dos homens (Lc. 2,52)- [Ah! Filho meu, eu te aperto entre os meus braços, porque muito te amo; mas quanto mais te amo, tanto mais para mim Tu te transformas em ramalhetes de mirra e de dor, pensando em tuas penas!] Enquanto o rei se assentava à sua mesa, dava o meu nardo o seu cheiro. O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, que repousa entre os meus seios. (Ct. 1,12-13)     II.    A segunda dor de Maria Santíssima:FUGA PARA O EGITOLevanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito (Mt. 2,13) A profecia de São Simeão acerca da Paixão de Cristo e das dores de Maria Santíssima começou logo a realizar-se na fuga que teve de fazer para o Egito a Sagrada Família, afim de subtrair o Filho a perseguição de Herodes. Pobre Mãe! Quanto não devia ela sofrer tanto na viagem como durante a sua permanência naquele país entre os infiéis. Vendo a Sagrada Família na sua fuga, lembrando-nos que nós também somos peregrinos sobre a terra. Para sentirmos menos os sofrimentos do exílio, à imitação de São José, tenhamos conosco no coração Jesus e Maria. - Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a vindoura (Hb. 13,14)    III.    A terceira dor de Maria Santíssima:PERDA DE NOSSO SENHOR NO TEMPOEis que teu pai e eu ansiosos te procurávamos (Lc. 2,48) A dor de Maria pela perda de Jesus foi sem dúvida uma das mais acerbas; porque ela então sofria longe do Filho, e a humildade fazia-lhe crer que Ele se tinha apartado dela por causa de alguma negligência sua. Sirva-nos esta dor de conforto nas desolações espirituais; e ensine-nos o modo de buscarmos a Deus, se jamais para nossa desgraça viermos a perdê-lo por nossa culpa. Lembremo-nos, porém, de que quem quiser achar a Jesus, não o buscar entre os prazeres e delícias, mas no pranto, entre as cruzes e mortificações, assim como Maria o procurou cheia de humildade. - Vistes, porventura, aquele a quem ama a minha alma? (Ct. 3,3)- O menino não aparece; e eu, aonde irei? (Gn. 37,30)- Vós não sois meu povo, e eu nem serei mais vosso (Os. 1,9)   IV.    A quarta dor de Maria Santíssima:ENCONTRO COM NOSSO SENHOR CARREGANDO A SANTA CRUZQuando olhávamos para ele, nenhuma beleza víamos (Is. 53,2) Consideremos o encontro que no caminho do calvário teve o Filho com sua Mãe. Jesus e Maria olham-se mutuamente, e estes olhares são como outras tantas setes que lhes transpassam o Coração amante. Se víssemos uma leoa que vai após seu filhote conduzido à morte, aquela fera havia de inspirar-nos compaixão. E não nos moverá à ternura ver Maria Santíssima que vai após Jesus Cristo, o seu Cordeiro Imaculado, enquanto o conduzem à morte por nós? Tenhamos compaixão dela, e procuremos também acompanhar a seu Filho e a ela, levando com paciência a cruz que nos dá o Senhor. - Não há quem a console entre todos os seus queridos (Jr. 1,2)     V.    A quinta dor de Maria Santíssima:MORTE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTOE a tua vida estará como em suspenso diante de ti (Dt. 28,66) Contemplemos a acerba dor de Maria Santíssima no Calvário, obrigada a assistir a Jesus moribundo, a ver todas as penas que ele padecia, sem contudo lhe poder dar alívio. Então a aflita Mãe não cessou de oferecer a vida do Filho à Divina Justiça pela nossa salvação. Lembremo-nos que pelo merecimento de suas dores cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça. Por isso tudo nós somos seus filhos. Ó como a Virgem exerceu sempre e ainda exerce bem o ofício de Mãe! Mas como nos havemos nós com o Filho? - Olhei, mas não havia ninguém para me ajudar! Eu estava consternado, mas não havia quem me sustivesse! Contudo, o meu braço veio em meu socorro e o meu furor me sustentou (Is. 63,5)- Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mt. 27, 46)- Mulher, eis aí o teu filho. (Jô. 19,26)   VI.    A sexta dor de Maria Santíssima:DESCIDA DE NOSSO SENHOR DA CRUZTirou da cruz o corpo (Mc. 15,46) Consideremos como, depois da morte do Senhor, dois de seus discípulos, José e Nicodemos, O descem da cruz e o depõe nos braços da aflita Mãe, que com ternura O recebe e O aperta contra o peito. Se Maria fosse ainda capaz de dor, que pena sentiria vendo que os homens, tendo visto seu Filho morto por amor deles, continuam a maltratá-lO com os seus pecados? Não atormentemos mais a nossa aflita Mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, voltemos arrependidos ao Coração aberto de seu Filho e Nosso Senhor, Jesus Cristo. - [O meu Filho era branco e vermelho] O meu amado é cândido e rubicundo (Ct. 5,10)- Infiéis, lembrai-vos disto: voltai ao coração [ferido do meu Filho], voltai arrependidos (Is. 46,8)  VII.    A sétima dor de Maria Santíssima:SEPULTURA DE NOSSO SENHOREnvolveu-o no pano e o depositou num sepulcro aberto em rocha (Mc. 15,46) Consideremos como a Mãe dolorosa quis acompanhar os discípulos que levaram Jesus morto à sepultura. Depois de O ter acomodado com suas própria mãos, diz um último adeus ao Filho e ao Seu sepulcro, e volta para casa, deixando o Coração sepultado com Jesus. Nós também, à imitação de Maria, encerremos o nosso coração santo Tabernáculo, onde reside Jesus, já não morto, mas vivo e verdadeiramente como está no céu. Para isso é mister que o nosso coração esteja desapegado de todas as coisas da terra.  - Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. (Lc. 12,34)  

Domingo, Nov 18 2007 


IgrejaExistência de Deus


Orlando Fedeli


Iª Via - Prova do movimento


IIª Via - Prova da causalidade eficiente


IIIª Via - Prova da contingência


IVª Via - Dos graus de perfeição dos entes


Vª Via - Prova da existência de Deus pelo governo do mundo


"Ninguém afirma: `Deus não existe' sem antes ter desejado que Ele não exista".

Esta frase, de um filósofo muito suspeito, por ser esotérico - Joseph de Maistre - tem muito de verdade.

Com efeito, o devedor insolvente gostaria que seu credor não existisse. O pecador que não quer deixar o pecado, passa a negar a existência de Deus. Por isso, quando se dá as provas da existência de Deus para alguém, não se deve esquecer que a maior força a vencer não é a dos argumentos dos ateus, e sim o desejo deles de que Deus não exista. Não adiantará dar provas a quem não quer aceitar sua conclusão. Em todo caso, as provas de Aristóteles e de São Tomás a respeito da existência de Deus têm tal brilho e tal força que convencem a qualquer um que tenha um mínimo de boa vontade e de retidão intelectual.

É para essas pessoas que fazemos este pequeno resumo dos argumentos de São Tomás sobre a existência de Deus, tendo por base o que ele diz na Suma Teológica I, q.2, a.a 1, 2, 3 e 4.                              Inicialmente, pergunta São Tomás se a existência de Deus é verdade de evidência imediata. Ele explica que uma proposição pode ser evidente de dois modos:

1) em si mesma, mas não em relação a nós;

2) em si mesma e para nós.

Uma proposição é evidente quando o predicado está incluído no sujeito. Por exemplo, a proposição o

homem é animal é evidente, já que o predicado animal está incluso no conceito de homem quando alguns não conhecem a natureza do sujeito e do predicado, a proposição - embora evidente em si mesma - não será evidente para eles. Ela será evidente apenas para os que conhecem o que significam o sujeito e o predicado. Por exemplo, a frase: "O que é incorpóreo não ocupa lugar no espaço", é evidente em si mesma e é evidente somente aqueles que sabem o que é incorpóreo.

Tendo em vista tudo isso, São Tomás diz que:


a) A proposição "Deus existe" é evidente em si mesma porque nela o predicado se identifica com o sujeito, já que Deus é o próprio ente.

b) Mas, com relação a nós, que desconhecemos a natureza divina, ela não é evidente, mas precisa ser demonstrada. E o que se demonstra não é evidente. O que é evidente para nós não cabe ser demonstrado.

Portanto, a existência de Deus pode ser demonstrada. Contra isso, São Tomás dá uma objeção, dizendo que a existência de Deus é um artigo de fé. Ora, o que é de fé não pode ser demonstrado. Logo, concluir-se-ia que não se pode demonstrar que Deus existe. São Tomás ensina que há dois tipos de demonstração:


1) Demonstração propter quid (devido a que)


É a que se baseia na causa. Ela parte do que é anterior (a causa) discorrendo para o que é posterior ( o

efeito).


2) Demonstração quia (porque)


É a que parte do efeito para conhecer a causa. Quando vemos um efeito mais claramente que sua causa, pelo efeito acabamos por conhecer a causa. Pois o efeito depende da causa, e é, de algum modo, sempre semelhante a ela. Então, embora a existência de Deus não seja evidente apenas para nós, ela é demonstrável pelos efeitos que dela conhecemos. A existência de Deus e outras verdades semelhantes a respeito dele que podem ser conhecidos pela razão, como diz São Paulo Rom. I, 19), não são artigos de fé. Deste modo, a fé pressupõe o conhecimento natural, assim como a graça pressupõe a natureza e a perfeição pressupõe o que é perfectível.

Entretanto, alguém que não conheça ou não entenda a demonstração filosófica da existência de Deus, pode aceitar a existência dele por fé. É no artigo 3 dessa questão 2 da 1ª parte da Suma Teológica que São Tomás expõe as provas da existência de Deus. São as famosas 5 vias tomistas.


Iª Via - Prova do movimento


É a prova mais clara. É inegável que há coisas que mudam. Nossos sentidos nos mostram que a planta cresce, que o céu fica nublado, que a folha passa a ser escrita, que nós envelhecemos, que mudamos de lugar, etc. Há mudanças substanciais. Ex.: madeira que vira carvão. Há mudanças acidentais. Ex: parede branca que é pintada de verde. Há mudanças quantitativas. Ex: a água de um pires diminuindo por evaporação. Há mudanças locais. Ex: Pedro vai ao Rio. Nas coisas que mudam, podemos distinguir:

a) As qualidades ou perfeições já existentes nelas.

b) as qualidades ou perfeições que podem vir a existir, que podem ser recebidas por um sujeito.

As perfeições existentes são ditas existentes em Ato. As perfeições que podem vir a existir num sujeito são existentes em Potência passiva. Assim, uma parede branca tem brancura em Ato, mas tem cor vermelha em Potência. Mudança ou movimento é pois a passagem de potência de uma perfeição qualquer (x) para a posse daquela perfeição em Ato.

M = PX —->> AX

Nada pode passar, sozinho, de potência para uma perfeição, para o Ato daquela mesma perfeição. Para mudar, ele precisa da ajuda de outro ser que tenha aquela qualidade em Ato. Assim, a panela pode ser aquecida. Mas não se aquece sozinha. Para aquecer-se, ela precisa receber o calor de outro ser - o fogo - que tenha calor em Ato. Outro exemplo: A parede branca em Ato, vermelha em potência, só ficará vermelha em Ato caso receba o vermelho de outro ser - a tinta - que seja vermelho em Ato. Noutras palavras, tudo o que muda é movido por outro. É movido aquilo que estava em potência para uma perfeição. Em troca, para mover, para ser motor, é preciso ter a qualidade em ato. O fogo (quente em ato) move, muda a panela (quente em potência) para quente em ato. Ora, é impossível que uma coisa esteja, ao mesmo tempo, em potência e em ato para a mesma qualidade.

Ex.: Se a panela está fria em ato, ela tem potência para ser aquecida. Se a panela está quente em ato ela não tem potência para ser aquecida.

É portanto impossível que uma coisa seja motor e móvel, ao mesmo tempo, para a mesma perfeição. É impossível, pois, que uma coisa mude a si mesma. Tudo o que muda é mudado por outro. Tudo o que se move é movido por outro. Se o ente 1 passou de Potência de x para Ato x, é porque o ente 1 recebeu a perfeição x de outro ente 2 que  tinha a qualidade x em Ato.Entretanto, o ente 2 só pode ter a qualidade  x em Ato se antes possuía a capacidade - a potência de ter a  perfeição x.Logo, o ente 2 passou, ele também, de potência de  x para Ato x. Se o ente 2 só passou de PX para AX, é  porque ele também foi movido por um outro ente, anterior a ele, que possuía a perfeição x em Ato.Por sua vez, também o ente 3 só pode ter a qualidade  x em Ato, porque antes teve Potência de x e sópassou de PX para AX pela ajuda de outro ente 4 que tinha a qualidade x em Ato. E assim por diante.

PX —> AX PX (5) —> AX PX (4) —> AX PX (3) —> AX PX (2) —> AX (1)

Esta seqüência de mudanças ou é definida ou indefinida. Se a seqüência fosse indefinida, não teria havido um primeiro ser que deu início às mudanças. Noutras palavras, em qualquer seqüência de movimentos, em cada ser, a potência precede o ato. Mas, para que se produza o movimento nesse ser, é preciso que haja outro com qualidade em ato. Se a seqüência de movimentos fosse infinita, sempre a potência precederia o ato, e jamais haveria um atoanterior à potência. É necessário que o movimento parta de um ser em ato. Se este ser tivesse potência,  não se daria movimento algum. O movimento tem que partir de um ser que seja apenas ato.

Portanto, a seqüência não pode ser infinita. Ademais, está se falando de uma série de movimentos nas coisas que existem no universo. Ora, esses movimentos se dão no espaço e no tempo. Tempo-espaço são mensuráveis. Portanto, não são movimentos que se dão no infinito. A seqüência de movimentos em tempo e espaço finitos tem que ser finita. E que o universo seja finito se compreende, por ser ele material. Sendo a matéria mensurável, o universo tem que ser finito. Que o universo é finito no tempo se comprova pela teoria do Big Bang e pela lei da entropia. O universo principiou e terá fim. Ele não é infinito no tempo. Logo, a seqüência de movimentos não pode ser infinita, pois se dá num universo finito. Ao estudarmos as cinco provas de S. Tomás sobre a existência de Deus, devemos ter sempre em mente que ele examina o que se dá nas "coisas criadas", para, através delas, compreender que existe um Deus que as criou e que lhes deu as qualidades visíveis, reflexos de suas qualidades invisíveis e em grau infinito. Este primeiro motor não pode ser movido, porque não há nada antes do primeiro. Portanto, esse 1º ente não podia ter potência passiva nenhuma, porque se tivesse alguma ele seria movido por um anterior. Logo, o 1º motor só tem ATO. Ele é apenas ATO, isto é, tem todas as perfeições.


Este ser é Deus.

Deus então é ATO puro, isto é, ATO sem nenhuma potência passiva. Este ser que é ato puro não pode usar o verbo ser no futuro ou no passado. Deus não pode dizer "eu serei bondoso", porque isto implicaria que não seria atualmente bom, que Ele teria potência de vir a ser bondoso. Deus também não pode dizer "eu fui", porque isto implicaria que Ele teria mudado, isto é, passado de potência para Ato. Deus só pode usar o verbo ser no presente. Por isso, quando Moisés perguntou a Deus qual era o seu nome, Deus lhe respondeu "Eu sou aquele que é" (aquele que n&ati